Um périplo com Alegria

     Com o invariável início das falas do historiador português que nos acompanhou na viagem, começo:

     Ora bom: Não sei se é de frente ou de costas. E por quê? Porque o português de cá, fala “difrente”, e, assim, em cada dez palavras, diz apenas seis, como constatou a bela figura do Marcos Linhares, poeta e jornalista hilário que nos fazia rir e chorar.

     Portanto, e essa foi a expressão que mais ouvimos em Portugal, os portugueses, como se o bacalhau não lhes bastasse, comem muitas sílabas.

     – Ai é?

     – É verdad.

     Lisboa (Hotel Sana Malhoa) ; Porto (Hotel Nova Galé); Vila Nova de Gaia; Sintra; Viana do Castelo; Batalha; Arouca (Hotel São Pedro), no distrito de Viseu; Aldeia do Espinheiro e seu escondido restaurante “Casa no Campo”, de onde quase voltamos de barriga vazia, se não fosse a esperteza da Filomena em descobrir a entrada; Braga; Alcobaça no distrito de Leiria; Valença; Ponte Vedra, Rianxo e Santiago de Compostela (Hotel Husa Santiago Apostol), estas três já na Galícia, estado autônomo da Espanha, que acredito ser como nossos filhos, que ao atingirem a maioridade, não deixam de ser nossa prole, são encantadoras, assim como nossos novos amigos Concha, Otília e Xurxo, o poeta gatinho que me pagou um delicioso café con leche, além de ter me dado dicas de músicas da Galícia, de Portugal e de Angola, de onde, acidentalmente, descobri mais tarde, uma cantora/compositora fenomenal, Garda, que se a viagem não tivesse valido por tantas outras coisas, só por essa pérola, já teria valido a pena. Tanto é assim que me consolo de ter perdido a máquina fotográfica na viagem , o que me fez ir à Fnac, para outra comprar e, de quebra, adquirir o cd da Garda. Falando na máquina, como todos sabem, nada se cria e ela se transformou em uma máquina de fazer café, que ganhei em um sorteio na Academia do Bacalhau, não necessariamente nessa ordem. Moral da história: não se regozije muito ao ganhar alguma coisa, pois, logo depois poderá perder algo valioso. Se bem que, no meu caso, a perda resultou em outro achado.

     O grupo com o qual viajei “endoideceu meu coração, e agora o que é que eu faço”, cantarolava o português do cd do motorista, o bem humorado e sarado Nelson (tive que lhe traduzir essa expressão), que, como disse ele, “Ele vos viu” e aí foi ele quem teve que explicar um “vusviu”, para nós, desantenados, incompreensível, após ter oferecido Champagne e um divino bolo enorme, em comemoração ao aniversário do Rivera e da “Cília” (Cecília, no português de lá). Não digo que queria ter a receita, pois assim os portugueses pensam que não a quero mais. Digo então que “gostava” de tê-la, mas aí nós é que pensamos se tratar de coisa do passado. Ora bom, estamos, mais do que nunca, precisando do dicionário Lá & Cá, do Roldão Simas Filho, marido da “Cília”, geminiana como eu e que fez ótima boa companhia, na ausência da Filomena Caixeta de Abreu, que na cidade do Porto ficou. Uma pena, e cruel seria lhe contar o que perdeu.

     Filomena Caixeta Abreu, minha querida e mais nova amiga de infância, alegre e descolada, surpreendeu recitando versos, de cor, de seu poeta preferido Fernando Pessoa.

     Carlos Magno, o belo médico, levou um de seus dez livros Canção da Água, e seu charmoso chapéu, me fará outro igual comprar, para dele me lembrar. Como se eu pudesse, um dia, me esquecer de seus olhos tão azuis, ai Jesus! Impressionou a “guitarrista”(no Brasil, violonista) e, quiçá, a baiana que, dizem, não nasce, mas estréia, e não sei se arretada é.

     João Alfredo Sinício, o “pão” de outrora e o “gato “de hoje, nos divertiu com inúmeros trocadilhos: Qual a “difrença” entre o padre e o bule. O primeiro tem muita fé e o bule é pra “pô” café. Qual é o tour mais caro do mundo? O turbilhão. Completo então, que o tour “Viagem às Nascentes Portuguesas” foi bem caro, pois foi um turbilhão de emoções, e gostaria que Sinício tivesse me atendido, e no lugar do seu excelente livro que levou para Portugal Nova Era Consciencial, lá distribuído, tivesse, para aliviar meu coração, colocado em sua mala na volta, as saudades que lá mesmo já se faziam presentes.

     Aqui me lembro de Rui Rasquillo, em seu maravilhoso almoço que nos foi oferecido em Aljubarrota, questionando sua mulher, a perfeita anfitriã Maria Manuel, sobre saudades, preferindo ele as memórias. Mas, estas as temos de coisas boas e más, enquanto que saudades são só de bons momentos, como a viagem em solidariedade a Portugal.

     José Jerônimo Ribeiro Rivera, que, poara alguns, anônimo era, mudou de domicílio: mora agora em nossos corações. Levou na viagem sua tradução Antologia, e já, já, vou ao Google copiar a linda “Balada da neve” de Augusto Gil, recitada por ele de cor.

     Não sei se, como disse Fernando Pessoa, também citado de cor, pelo Rivera, “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”, mas, nessa viagem, era só esticar o braço e esbarrávamos em poetas que diziam, a respeito de um neto de padeiro, que “a massa de seu saber fora aquecida no forno de seu amor”. Palavras de Marcos Linhares sobre Rivera. Amém.

     Santiago Naud, nosso Google ambulante de risonha fisionomia, querido por todos e encantado com minha franjinha, além de ter levado na bagagem seus 47 poemas lusitanos,proferia consistentes depoimentos, enquanto pervagávamos por belas paisagens.

      Roseli F. de Arruda sorri com olhos rasgados e fala, em Portugal como em São José do Rio Preto, com uma das vozes mais maviosas que já ouvi, de seu livro Mathyê, o senhor das quatro direções.

     Sua filha Amanda tem bem a quem puxar.

     André, marido de Roseli, como todo gordinho, é bem simpático e dono de um belo rosto. Ali, meiguice não falta.

     Edilene Fernandes levou seu livro A palavra do presidente. Bonita como é, deve ter sido colírio para os olhos dos poetas.

     Outra pantera, a Ana Lívia, fez parte do grupo assim como Isadora, trazida por sua avó de belos olhos verdes, a professora Wuilna que da neta não descuida, e disso entendo eu: neto é páreo duro com a excursão às nascentes portuguesas. 

     Hermínio Oliveira, o artista da fotografia, de iguais olhos coloridos, espírito sagaz, sempre gentil, atento e sensível, revelando suas fotos in loco e carinhosamente com elas nos agraciando, obrigada!

     O jornalista e historiador Manuel Mendes e sua terna Lúcia, uma gracinha de casal. Ele, do alto de seus 86 anos, com receio de se fazer esperar, era um dos primeiros a chegar. Levou em sua bagagem Meu Testemunho de Brasília.

      Adriana Kortland, grande contista, autora de Almagesto, que, apesar de ter comprado a passagem, não pôde viajar conosco, devido ao AVC sofrido por sua mãe, mas que, querida como é, esteve presente em nossos espíritos e foi constantemente lembrada.

     Carlos Jorge Mota, o culto historiador, prestimoso inda por cima, que as costas, um dia, nos deu, acho que magoado. Esses brasileiros não têm jeito. Antes de lhe agradecer por tudo o que fez por nós, quero lhe reafirmar que as piadas sobre portugueses e a imitação de seu falar não são feitos por maldade, mas pela graça da coisa. Nada temos contra nossos antepassados. Apenas contra os argentinos. Todo brasileiro que pisar o solo lusitano sairá dele amando Portugal e quererá a ele retornar. Como meu pai que, estando um dia na cidade do Porto, escreveu:

     “Jamais se me apagará da memória o espetáculo que tive diante dos olhos, quando pude mitigar aquela estranha saudade de uma cidade que visitava pela primeira vez…”

     ” Last but not least” , Victor Alegria, nosso impagável comandante-em-chefe, de quem sorvemos as palavras, a figura mais incrível e divertida que todos profundamente amamos, a quem agradeço imensamente por esta inesquecível viagem, a melhor de todas de minha vida. Marcos Linhares, por outras palavras, disse que após ter convivido com Victor Alegria, compreendeu a razão de ser da grandiosidade de seu filho Tagore. Faço minhas suas palavras, pois o meu querido Tagore é de ouro. Tem também a quem puxar. Como Dona Ísis é igualmente competente, sua herança e legado sanguíneo e espiritual é dos melhores.

     Tive que terminar esse relato, pois já passava da meia noite e cedo era preciso acordar, do contrário, o culto e prestativo professor e historiador Armando Cristóvão Ribeiro, com sua pele lisinha notada por Filomena, armaria um fuzuê, mandando tudo para os “Ares e Mares”, revista que juntamente com Roseli e Edilene, será literalmente lançada aos ares e mares.

     Antes preciso contar que, além do nosso encontro em Lisboa com o simpático Diretor-Geral da Biblioteca Nacional de Portugal, Dr.Jorge Couto, que nos recebeu em uma imensa mesa oval do salão nobre, onde cada um falou dos livros que ali deixaríamos, além do prazer de ter ouvido um violonista português, que nos encantou com suas músicas na UNICEPE, tivemos o privilégio de assistir a um concerto de órgão, dado exclusivamente para nós, em um convento em Arouca, cujo único convidado alheio ao grupo fora um cantor lírico, com recital agendado em Barcelona, que veio expressamente de Lisboa, de carro, para assistir ao evento. Após a alimentação espiritual, ainda no convento, serviram-nos um magnífico jantar disposto em uma enorme mesa de pedra, com direito a lareira acesa.

     Quando, no rodízio da vida, esta nos ofertar, em sua bandeja de tristezas e alegrias ou na montanha russa de altos e baixos, de vacas gordas e magras, arouquesas ou não, façam o que farei, fechem seus olhos e transportem-se para um certo ônibus recheado de poetas.

     Termino, dizendo que, por lutar contra a tendência do tempo, cada vez mais veloz, em que se decretou, e muita gente crê nisto, que a véspera já caducou, a antevéspera é história e imemorial o ocorrido no ano passado, resolvi retirar da estante o livro que levei em minha bagagem, Ópera do Poeta e do Bárbaro, vertido para o francês, em uma tentativa de torná-lo atraente aos francófonos. Afinal, 1976, data de sua primeira e restrita publicação, embora pertença ao século passado, não está tão longe assim, justamente pela velocidade do tempo. Foi outro dia mesmo…

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